O fim de uma era com a retirada dos últimos orelhões das ruas brasileiras
Janeiro de 2026 marca um ponto de viragem histórico para a paisagem urbana e para a história das comunicações no Brasil. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deu início ao processo de recolhimento dos últimos orelhões que ainda resistiam nas calçadas do país. O que antes era uma ferramenta vital de conexão para milhões de brasileiros, hoje tornou-se uma peça de museu a céu aberto, sucumbindo à onipresença dos smartphones e à evolução das redes de dados de alta velocidade.
A ascensão e queda de um ícone do design nacional
Criados pela designer Chu Ming Silveira em 1971, os orelhões (oficialmente chamados de “Postos Telefônicos”) tornaram-se símbolos do design brasileiro e da democratização do acesso à comunicação. Durante décadas, as fichas e, posteriormente, os cartões telefônicos foram itens indispensáveis na carteira de qualquer cidadão. O orelhão era o ponto de encontro, o local de notícias urgentes e a única forma de muitos brasileiros falarem com familiares em outras regiões.
No entanto, o declínio começou de forma acelerada na última década. Com a popularização dos telemóveis e a expansão das redes 4G e 5G, o uso dos telefones públicos despencou mais de 90%. Em muitos municípios, a taxa de utilização de um orelhão era de menos de uma chamada por mês. Manter essa infraestrutura tornou-se um fardo logístico e financeiro insustentável para as concessionárias de telefonia.
Os motivos econômicos e o custo da manutenção
A decisão da Anatel não é apenas nostálgica, mas baseada em números frios e na eficiência da gestão pública. Manter um orelhão em funcionamento exige custos de reparação contra o vandalismo, substituição de peças que já não são fabricadas e manutenção de cabos de cobre, uma tecnologia que está a ser rapidamente substituída pela fibra ótica.
Além disso, a manutenção destes postos ocupava recursos que as operadoras agora são obrigadas a redirecionar para a expansão da conectividade digital em áreas remotas. O novo acordo de concessão prevê que, em vez de manter telefones de rua obsoletos, as empresas devem investir na instalação de redes de internet em escolas públicas e em localidades que ainda sofrem com o “apagão digital”. Trata-se de uma troca de tecnologia: o sinal de voz analógico dá lugar à banda larga produtiva.
A exceção das áreas isoladas e o papel social
É importante notar que o recolhimento não é imediato para todas as regiões de forma indiscriminada. A Anatel estabeleceu critérios rigorosos para garantir que comunidades isoladas, aldeias indígenas e áreas rurais onde o sinal de telemóvel ainda é inexistente ou instável não fiquem incomunicáveis. Nestes locais, o telefone público ainda cumpre um papel de segurança e utilidade pública.
Contudo, para as grandes capitais e centros urbanos, a retirada é definitiva. A imagem do orelhão, que já serviu de abrigo para chuva e cenário de filmes, agora dará lugar a espaços mais limpos nas calçadas ou, em alguns casos, será substituída por “totens digitais” que oferecem Wi-Fi gratuito e informações turísticas, uma evolução natural do conceito de posto público de comunicação.
O destino das carcaças e a preservação da memória
Uma preocupação levantada por historiadores e entusiastas da tecnologia é o destino dos equipamentos recolhidos. Milhares de toneladas de plástico e metal precisam de ser recicladas corretamente para evitar impactos ambientais. Algumas unidades icónicas estão a ser doadas para museus de tecnologia e centros culturais, preservando a memória de uma época em que a comunicação exigia deslocamento físico e paciência.
Algumas iniciativas urbanas também sugerem a transformação dos antigos “casulos” em pontos de troca de livros ou estações de carregamento para dispositivos móveis, mantendo a estrutura metálica mas alterando completamente a sua função original. É a tecnologia antiga servindo de base para as novas necessidades da sociedade conectada.
Conclusão sobre a transição digital no Brasil
O recolhimento dos últimos orelhões é o capítulo final de um livro que começou a ser escrito há mais de 50 anos. Ele simboliza a vitória da mobilidade e da individualização da tecnologia. Hoje, cada brasileiro carrega no bolso um dispositivo que é, ao mesmo tempo, um telefone, um computador e uma central de entretenimento mil vezes mais potente do que qualquer orelhão já foi.
Embora o sentimento de nostalgia seja inevitável ao vermos as ruas mudarem, essa transição é um sinal de progresso. O fim dos orelhões libera espaço e recursos para que a próxima grande revolução — a da conectividade total e da Inteligência Artificial — possa florescer. A telefonia pública no Brasil não está a morrer; ela está apenas a transformar-se em algo invisível, rápido e presente em todos os lugares através das ondas de rádio e dos cabos de luz.




